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OLHARES DE ÁFRICA

 

  Ilka Boaventura Leite

                          Profa. de Antropologia da UFSC, coordenadora do NUER

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Artistas visuais são inegáveis mediadores/as e deslocam-se entre discursos epistemológicos, linguagens e códigos estéticos e visuais. Revelam através de suas obras, uma parte significativa dos sujeitos contemporâneos, seus mundos, encontros e desencontros.

 

O projeto como percurso de viagem iniciou-se em 1997 em Chicago, conversando com artistas muralistas, continuou nos meses de outubro e novembro de 2006 em Lisboa onde conheci e conversei com artistas portugueses e moçambicanos que vivem nesta cidade e imediações. Após identificar e mapear um conjunto de aspectos sobre a chamada “arte africana”, de reconhecê-la como uma fronteira no campo das representações sobre a Arte, iniciei a etapa mais longa da viagem. Em fins de janeiro de 2007 passei a residir em Lisboa, iniciando-se aí o trabalho de campo propriamente dito do projeto “Olhares de África”, desenvolvido através de bolsa de pós-doutorado sênior da CAPES. Neste mesmo ano desloquei-me para Maputo, seguiram-se duas permanências em 2007 e 2009. Em 2008 iniciei as viagens pelo Brasil – Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro com apoio do CNPq. Em 2013 e 2014, Angola, Luanda e Namibe, e por último, Buenos Aires, 2015.

 

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A diáspora africana, sob este aspecto, integra lugares e expressões de vidas que não se encontram hoje refletidas nos horizontes habituais, portanto é importante percebê-la em suas mais variadas expressões visuais, imagens e discursos. É preciso levar em conta as diversas noções de pertencimento criadas e transformadas em obras pelos artistas, estas fronteiras provenientes de vozes e imagens por vezes ainda invisíveis ou silenciadas no espelho homogêneo das nações.

 

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A recuperação das histórias de opressão pela afirmação dos vínculos entre as tradições culturais dos africanos e afro-descendentes contrapõe-se à homogeneização requerida nos atuais dispositivos legais. Importante também indagar em que medida as imagens de África disseminam velhos rótulos e estereótipos, num cenário de novas clivagens, fronteiras e éticas transnacionais.

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As imagens de África  se apresentam como articulações discursivas  que integram narrativas históricas, míticas e heróicas. No Brasil esta produção vem destacando-se enquanto projeções de singularidades realçadas desde um passado colonial escravista. Em Moçambique remetem ao contemporâneo, a uma forma de distanciar-se dos estereótipos de arte categorizada freqüentemente como primitiva ou tribal. Em Portugal estão frequentemente referidas ao processo pós-independências e a quebra dos vínculos coloniais. Em Angola é expressão do ecletismo e da nova urbanidade em explosão. Em Buenos Aires é expressão de uma nova e visível afro-latinidade.

 

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Neste procedimento de ir e vir, de identificar os olhares, ouvir, sentir e tentar perceber os vários discursos, registra-se um crescente e surpreendente interesse pela África: leis que introduzem a educação e o estudo de África, novas medidas de proteção do patrimônio cultural afro, novos acordos comerciais,  intercâmbios estudantis e de pesquisa científica que alteram, criam  e renovam as imagens.

 

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