Línguas de Angola

1
Crianças do Curoca (Foto: Ilka B. Leite)
  Cristine G. Severo
Linguista, prof. da UFSC, pesquisadora do projeto Kadila
 
A distribuição estatística das línguas angolas está sendo um dos alvos do primeiro Censo geral, realizado em 2014. As línguas angolanas são faladas por diferentes grupos etnolinguísticos distribuídos geograficamente pelo país. A classificação e distribuição das línguas em Angola segue modelos de distribuição étnica no país. A título de exemplificação, Kajibanga (2003) propõe, a partir de uma perspectiva endógena, a existência de três “espaços socioculturais” que não se restringem aos limites territoriais e políticos:

Os espaços socioculturais khoisan incluem os kede, nkung, bochimanes e kazama; os vátwa agregam os cuissis e cuepes; e os bantu incluem os seguintes agrupamentos: ovibundu (umbundu), ambundu (kimbundu), bakongo (kikongo), lunda-tucôkwe (ucokwe), ngangela, ovambo, nyaneka, nkumbi, helelo, axindonga e luba.

Tais classificações contam com o aspecto linguístico como critério de agrupamento étnico e cultural. Contudo, mesmo este critério não é uniforme e homogêneo, pois se apoia em um conceito estrutural de língua que por vezes não considera as práticas comunicativas entre os sujeitos.

Para uma classificação das línguas de Angola, são apresentadas a seguir duas abordagens vinculadas entre si.

Daniel Sassuco[1], coordenador e professor do Departamento de Línguas Angolanas da Universidade Agostinho Neto, propõe que a situação etnolinguística de angola pode ser resumida da seguinte maneira: a língua umbundo é falada pelo povo ovimbundu; a língua kimbundu é falada pelo povo ambundu; o grupo bakonko fala a língua kikongo; os tucokwe falam cokwe; e a língua kwanyama é falada pelo grupo vakwanyama. Esta última língua é falada da região do cunene. O grupo vangangela fala a língua ngangela. Os mapas abaixo ilustram esquematicamente a distribuição geográfica de tais línguas.

[1] Entrevista publicada no caderno do NUER e disponível do site Kadila.

2
Mapa Etnolinguístico de Angola. In: Fernandes, J.; Ntondo, Z. (2002). Disponível para consulta em :<http://www.triplov.com/letras/americo_correia_oliveira/literatura_angolana/anexo3.htm>.

Segundo Nzau (2011), a realidade linguística de Angola inclui grupos linguísticos bantu e não bantu, entre os quais:

A matriz linguística bantu é predominante em Angola. Estatísticas gerais revelam que em África existem mais de 600 línguas bantu faladas contemporaneamente. Em Angola, elas se distribuem por três zonas (Nzau, 2011):

A distribuição geográfica e étnica das línguas, contudo, deve ser vista de forma mais complexa e menos estática. Por exemplo, algumas línguas destas sofreram processo de dialetização, como o kikongo que originou as variedades linguísticas fyote/ibinda, faladas em Cabinda (Nzau, 2011). Além disso, o mapa etnolinguístico apresenta um panorama geral e ilustrativo, devendo ser considerado comparativamente em relação aos usos linguísticos locais. Tais usos compreendem realidades muitas vezes multilíngues e de misturas e cruzamentos linguísticos, especialmente em regiões fronteiriças.

Tal cartografia linguística também não capta a fluidez e complexidade dos grupos transumantes, como é o caso dos pastores da região do sul de Angola, os Kuvale, que circulam pelo deserto do Namibe, localizado no sudoeste de Angola. A transumância, embora fluida e móvel, não impede, contudo, que os Kuvale conservem uma certa homogeneidade linguística como fruto da forte coesão cultural do grupo. Sobre as características linguísticas dos Kuvale, Ruy Duarte de Carvalho (2000) teceu comentários riquíssimos que serão retomados a título de ilustração:

“Para a tradição local, nomeadamente a partir de informantes Kuvale, não há dúvidas: todas essas populações, embora pratiquem hoje línguas bantas, umbundo, olukuvale esta última pertencendo ao grupo tybelo, das que praticam todos os grupos herero de que os Kuvale também fazem parte provém do Norte e falavam, antes, línguas de estalo da família das que usam ainda hoje os descendentes dos KHoi-Khoi e dos San de antigamente. Seriam assim as populações que a literatura refere como pré-bantos, chegadas aqui muito antes de quaisquer povos bantos, como os Kuvale. Da sua língua original pouco se sabe. Tê-la-iam perdido e adoptado sucessivamente, e ao longo dos séculos, primeiro as das populações aborígenes, San, os tais Bosquímanos e depois as dos Bantos, quando estes passaram a dominar.

Mas estas populações, que poderão estar na origem dos Dombe, dos Kwando e dos Kuroka de hoje, aparecem, nos testemunhos, explicitamente diferenciadas de outras igualmente negras mas também “não-bantas”,  já presentes no litoral quando as primeiras desceram das regiões de Benguela. Esses seriam os Vakwambundo de ontem e os Kwisi de hoje, povos Twa, e tem em conta que povos também referidos com Twa são assinalados na intricada e explosiva configuração étnica da região dos Grandes Lagos, no Rwanda e no Burundi da inquietante atualidade africana.” (Carvalho, 2000, p. 64)

Jovens Kwisse, deserto de Namibe, foto Acervo do Ce.Do
Jovens Kwisse, deserto de Namibe, foto Acervo do Ce.Do

Paralelamente às línguas angolanas, é preciso considerar o percurso histórico – colonial e pós-independência – da língua portuguesa em Angola. Atualmente, ela tornou-se majoritária, sendo que o número de falantes de português como língua materna tem crescido sistematicamente, fruto da política linguística de oficialização do português. Contudo, é preciso considerar que a língua portuguesa falada em Angola sofreu influências das línguas africanas, apresentando particularidades discursivas, pragmáticas, sintáticas, lexicais, morfológicas, fonológicas e prosódicas, conforme descritas pela linguista Amélia Mingas na obra Interferência do Kimbundu no português Falado em Lwanda (2000). Outro trabalho que trata das configurações estruturais e políticas da língua portuguesa em Angola é a tese de doutorado de Domingos Gabriel Ndele Nzau sobre A Língua Portuguesa em Angola (2011), disponível em < http://www.adelinotorres.com/teses/Domigos_Ndele_Nzau.pdf>, além do artigo assinado por Nzau, Venâncio e Sardinha (2013) sobre a língua portuguesa angolana (http://www.revistalimite.es/volumen%207/09nzau.pdf).

Tais especificidades têm motivado os linguistas de Angola a descreverem a norma do português angolano, com vistas a legitimar o seu uso em documentos oficiais e o seu ensino em escolas de Angola, priorizando os materiais didáticos angolanos em detrimento dos portugueses ou brasileiros. Para maiores discussões sobre a construção da norma da língua portuguesa, conferir a entrevista realizada com a professora Amélia Mingas, em <http://www.ciberduvidas.com/idioma.php?rid=2815>.

Ainda sobre os processos de legitimação do português angolano, é possível considerar o papel da literatura angolana escrita em português, que mescla termos, expressões e sintaxe de línguas angolanas. Trata-se de um híbrido linguístico que ratifica o papel estético e político da língua na construção de uma literatura nacional. Muitos autores angolanos têm incorporado em suas obras glossários de termos e expressões de línguas angolanas, tornando a obra literária linguisticamente rica e híbrida. É o caso, por exemplo, da prosa de Agostinho Neto, Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Ruy Duarte de Carvalho e Pepetela, para mencionar apenas alguns autores.

Estudos comparados entre o português brasileiro e o português angolano têm sido feitos por pesquisadores brasileiros e angolanos, com buscas de uma compreensão linguística e histórica de formação da língua portuguesa a partir de seu contato com línguas africanas, especialmente línguas da família Bantu. Alguns trabalhos que comparam o português angolano e o português brasileiro incluem: Angola e Brasil: vínculos linguísticos afro-lusitanos, por John Lipski (2008); Variedades linguísticas em contato: português angolano, português brasileiro e português moçambicano, por Margarida Petter (2008) e A indeterminação do sujeito no português angolano: uma comparação com o português do Brasil, por Eliana S. Teixeira (2011), dentre outros.

Por fim, percebe-se que a realidade linguística de Angola é complexa e rica, envolvendo atitudes políticas, acadêmicas, institucionais e locais de valorização das línguas africanas em paralelo com a crescente expansão do uso da língua portuguesa. A construção de escolas bilíngues e o uso de línguas angolanas na mídia de massa são exemplos de promoção do multilinguismo em Angola. Políticas de defesa e valorização da diversidade tornam-se possíveis quando são efetivamente sensíveis às práticas linguísticas locais de uma sociedade multiétnica, multicultural e plurilíngue.

Referências

FERNANDES, João; NTONDO, Zavoni. Angola: Povos e Línguas. Luanda: Editorial Nzila, 2002.

KAJIBANGA, Víctor. Sociedades étnicas e espaços socioculturais. Comunicação apresentada no colóquio científico Angola, 25 anos de independência: Balanço e perspectivas. Moscovo, Casa Editorial Lean, 2003.

LIPSKI, John. Angola e Brasil: vínculos linguísticos afro-lusitanos. Veredas, 9, 2008: 83-98.

MINGAS, Amélia. Interferência do Kimbundu no português Falado em Lwanda. Luanda: Edições Chá de Caxinde, 2000.

NTONDO, Zavoni. Morfologia e Sintaxe da língua Ngangela. Luanda: Nzila, 2008.

NZAU, Domingos Gabriel Ndele. A Língua Portuguesa em Angola: Um Contributo para o Estudo da sua Nacionalização. Tese de doutorado. Universidade da Beira Interior, Departamento de Letras (2011). Disponível em <http://www.adelinotorres.com/teses/Domigos_Ndele_Nzau.pdf>.

NZAU, D. G. N.; VENÂNCIO, J. C.; SARDINHA, M. da G. D. Em torno da consagração de uma variante angolana do português: subsídios para uma reflexão. Limite, nº 7, 2013, pp. 159-180

PETTER, Margarida. Variedades linguísticas em contato: português angolano, português brasileiro e português moçambicano. Universidade de São Paulo, Tese de Livre-docência, 2008.

TEIXEIRA, Eliana S. Pitombo Almeida, N. L.F. A indeterminação do sujeito no português angolano: uma comparação com o português do Brasil. Papia (Brasília), v. 21(1), p. 99-111, 2011.

 

 
Contato    Apoio: CNPq / CAPES