A Pastorícia

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Foto: Ilka B.Leite, 2013

O estudo da mobilidade humana no Deserto de Namibe, em Angola, quer  melhor compreender fluxos migratórios, como a dos pastores transumantes do Kuroca.

Sabe-se que a noção de “problema migratório”, tal como são tratados comumente os fluxos de pessoas no mundo, tende a tornar opaca a multiplicidade dos modos de ser e viver, confundindo a capacidade humana de movimento com aquelas que são concebidas como uma fonte de “desordem” social ou insubordinação, pelo simples fato da própria mobilidade introduzir um tipo de fenômeno que está invisível ou ausente da agenda pública e da segurança de estados nacionais.

1.1“A etnia Kuvale tem-se caracterizado por uma certa vivência marginal relativamente ao poder político, tanto no período colonial como no pós-colonial. Com uma tradição pastoril arreigada, encontram-se parcas descrições sobre o seu modo de vida, exactamente porque se foram sempre colocando na orla da construção identitária, primeiro do espaço colonial denominado Província de Angola, e, depois, do tecido nacional angolano, isto é, enquanto comunidade culturalmente definida com práticas sociais próprias nunca se integrou verdadeiramente no trajecto de modernidade que foi sendo traçado na geografia angolana”. Cátia Miriam Costa, in: http://www.buala/org/pt/autor

 

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(Savignan, in Carvalho, 2000)

Há ainda na atualidade muitos milhões de seres humanos que extraem da sua mobilidade e dos seus recursos vivos e móveis as razões e as dinâmicas da sua vida econômica e cultural, entendida a cultura aqui, como totalidade dos comportamentos, das expressões, das interpretações e dos conceitos que correspondem e assistem à prática de determinada sociedade. A maioria deles são pastores.”(…). “pastores de renas, de bois, de ovelhas, de yaks, de lamas e de camelos que se deslocam com os seus rebanhos.”

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I – II – Vasilha usada para ordenha. III – Colar (Foto: Ilka B. Leite)

“Ora, os pastores são unanimemente acusados de independentes, pouco controláveis, pouco dóceis, pouco respeitadores das autoridades, turbulentos, bandidos, preguiçosos, avessos tanto aos trabalhos agrícolas como ao trabalho assalariado e público, rebeldes à escolarização, vítimas de arcaísmo cultural, de estagnação e de imobilismo, e sobretudo, estão sempre prontos para roubar gado. De facto, onde quer que existam.”

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I e II Foto: Ilka B. Leite, III – Pastor de Cabra do Namibe, foto Teresa Aço, 2011

 

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I – Soba Mbeiapé em traje oficial II

“A mobilidade pode facilmente ser entendida como um fator de perturbação para os interesses das comunidades fixadas, agricultores na sua maioria legitimamente ciosos do controle absoluto sobre a terra que os mantém e justifica. Acresce que os pastores de animais de grande porte, e é esse o caso de grande parte dos pastores da África que mais de perto nos podem interessar, são de uma maneira geral, embora em maior ou menor grau, também povos mais ou menos guerreiros ou que preservam traços culturais, logo comportamentais, de uma vocação e de uma capacidade guerreiras. São traços, de facto implícitos às modalidades produtivas que os definem como gestores de um meio de produção móvel, o gado, e de recursos dispersos por territórios vastos e naturalmente pouco povoados”.

 

6“O gado é fácil de roubar e quem se apetrecha e treina para defender os seus rebanhos e muitas vezes, quase sempre, tem que agir e deslocar-se rapidamente se os quer recuperar, está também apetrechado para se apropriar do gado alheio com que depara nestas distâncias. O seu gado desaparecido, se não fôr recuperado, tenderá sempre a ser substituído por outro. Na cabeça de um pastor, assim culturalmente modelado, essa circulação de animais corresponde a uma razão, a uma racionalidade, a uma lógica que não a situa tanto como uma articulação de roubos quanto como uma dinâmica de equilíbrio, ou até de reciprocidade, se quiseres. E é isto, sobretudo, esta lógica pastoril, que os sedentarizados temem, porque a lei institucional em que se amparam e a que recorrem não é afinal nem cultural nem factualmente aceite, respeitada e digerida pelos pastores, que se vêem com frequência em desvantagem perante os seus móveis vizinhos, que tanto podem estar aqui agora como a muitas léguas de distância amanhã, mesmo conduzindo a pé o gado que transviam. E é a consciência e o temor disso que inquieta as polícias e as administrações. Não custa a entender.”

 “Sociedades pastoris como as do Kuvale, e são muitas e com muitos pontos em comum as que prevalescem em África e  é nesse universo que estou a introduzir, atestam a evidencia, pouco cômoda, desconfortável, de que mesmo ali à mão existem outros tempos, outras idades, que em si mesmo constituem uma afronta para a ordem que se pretende dominante e para a afirmação do progresso, da adopção dos sinais do progresso. Por isso também, sociedades como essa são por todo o Mundo estrategicamente ignoradas, olhadas de longe, apenas porque assim talvez revelem mais inócuas enquanto aberrações, anacronismos, descuidos da história que a história se encarregará de resolver, integrando, na melhor das hipóteses e se não houver resistência, ou aniquilando, dominando, dissolvendo, igualizando e anulando, por fim.”

CARVALHO, Ruy Durate. Vou lá visitar pastores: exploração epistolar de um percurso angolano no território Kuvale (1992-1997). Rio de Janeiro: Gryphus, 2000, pp.:26-28.

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Foto: Ilka B. Leite, 2013.

 

 

 

 

A expressão da  pecuária na Província do Namibe é mais significativa do que a da agricultura. Porem tal como aconteceu com a fauna bravia, a pecuária em geral foi naturalmente marcada pelas situações de insegurança pelo conflito armado.

Como a maior parte das regiões tropicais, a pecuária assume um papel muito importante, quer como atividade de subsistência quer como atividade econômica em regiões com as características do Sudoeste  de Angola, onde se insere a Província do Namibe,  marcada fundamentalmente pela aridez. Nestas regiões, os pastos  naturais doces (cuja características essencial  e manterem-se palatáveis durante todo o ano) acabam por assumir uma posição de especial relevo e fundamental para a sobrevivência de uma comunidade de povos pastoris que vivem essencialmente da forma como os rebanhos conseguem explorar eficientemente os recursos  naturais colocados a sua disposição.

O pastoreio pode ser livre ou conduzido, no final do dia os animais são recolhidos a um curral para passarem  a noite . Este tipo de condução dos rebanhos exige muita experiência por parte do pastor, que, para alem de ter de saber manear os animais, deve conhecer bem os diferentes tipos de vegetação e a sua importância para o gado.   (Depoimento Teresa Aço)

 

 

 

 
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